Cuidados com a pele: a absorção de químicos e os efeitos na saúde e no meio ambiente

Por Dra. Grace Marzano

Todos os dias, somos expostos a uma infinidade de substâncias químicas, não só a uma substância por vez, mas de várias, porque estão presentes em muitos produtos alimentícios, de limpeza e até mesmo em cosméticos.

Todos estes produtos têm substâncias tóxicas como alérgenos,  irritantes, conservantes , intensificadores de penetração entre muitos outros, formando um verdadeiro “coquetel” de substâncias, que segundo estudos, pode levam à alterações da saúde humana e ainda ao meio ambiente porque também são poluentes.

As substâncias

A exposição é diária e proveniente de inúmeros produtos. Desde nossa alimentação com resíduos de pesticidas, embalagens plásticas com bisfenol A e a ftalatos, detergentes que possuem alquifenóis e até mesmo pelos polibromados presentes em estofados.

Da mesma forma e talvez até mais diretamente, é a aplicação tópica de cosméticos, artigos de higiene pessoal e o uso de produtos de limpeza químicos, que também são uma importante fonte de exposição aos químicos.

A grande maioria dos produtos cosméticos e de limpeza, contém parabenos, um conservante amplamente utilizado para manter a integridade de cremes, shampoos, hidratantes, protetores solares, entre outros, mas que podem causar alergias cutâneas e o envelhecimento precoce, podendo até mesmo interferir em nosso sistema endócrino. Pois ao entrarem em contato com a pele, são absorvidos e vão para a corrente sanguínea, podendo causar danos não só a saúde da pele, mas também a outros órgãos. 

Mesmo tendo se tornado menos populares nos últimos anos, os parabenos são comumente combinados devido às diferentes solubilidades e espectros de atividade. Os parabenos de metila e os de etila são usados com mais frequência de forma combinada e ainda associados a muitos outros biocidas, principalmente os liberadores de formol. Essa exposição combinada, pode provocar reações alérgicas de contato (não produzidas quando utilizados isoladamente) e são usados sem restrições ou qualquer advertência em rótulos.

No caso dos conservantes, é importante entender que há justificativas para combinar vários deles: explorar espectros de ação antimicrobiana impedindo contaminação do produto, maior prazo de validade,  e assim evitar níveis excessivos de conservantes únicos que implicariam um aumento no risco de alergia. No entanto, do ponto de vista da sensibilização de contato, mesmo as substâncias combinadas em percentuais menores também são biologicamente ativas como alérgenos.

Além dos conservantes, as fragrâncias introduzidas às fórmulas para que o produto tenha um aroma agradável, levam em suas formulações, dois ou mais componentes químicos, aumentando o potencial alergênico do produto. Esse tema tem despertado maior atenção, uma vez que estudos científicos têm comprovado a seriedade e a diversidade dos problemas que podem advir da exposição a tais substâncias.

Além de alergias, esses produtos por vezes, podem causar problemas de saúde mais graves. Estudos atuais têm associado a exposição a componentes químicos, com diversos tipos de cânceres, redução da fertilidade e distúrbios endócrinos.

Análise clínica

No dia a dia da rotina clínica, reparo um relevante aumento das alergias de pele, causada após o uso de produtos de higiene, cosméticos ou de limpeza, em decorrência da longa e alergênica mistura de ingredientes da fórmula.

Uma limitação particular sobre a interpretabilidade dos dados sobre a co-exposição decorre do fato de que as concentrações de uso reais não estão disponíveis na rotulagem do ingrediente, de acordo com o INCI, que é puramente qualitativo e nem sempre preciso.

Panorama da alergia

Cerca de 30% da população brasileira apresenta algum tipo de alergia, o que contribui para o crescente desenvolvimento de cosméticos livres de ingredientes alergênicos ou potencialmente tóxicos. Dentre os cosméticos free, ou seja, livres de ingredientes sensibilizantes, alergênicos ou potencialmente tóxicos, destaco a ausência de parabenos e conservantes potencialmente tóxicos, fragrâncias, corantes, entre outros ingredientes. 

Perigos para nossa saúde

Todos esses compostos estão associados a um risco evitável de desenvolvimento de alergias, dermatite de contato alérgica, especialmente em crianças que sofrem de dermatite atópica ou idosos com pele mais seca e sensível.

Estamos diante ainda de outro desafio, não menos relevante que, além dos danos à saúde, o meio ambiente também sofre com substâncias químicas, tóxicas, não biodegradáveis de uso rotineiro, o que leva a contaminação das águas, já que não são removidos em estações de tratamento, impactando diretamente a vida marinha e consequentemente uma cadeia alimentar inteira.

Como sair dessa?

A conscientização da sociedade é importante para garantir a divulgação completa de informações sobre substâncias tóxicas ou sensibilizantes presentes em produtos e estimular pesquisas sobre os benefícios dos cosméticos sustentáveis, certificados ou não, para a saúde humana, o meio-ambiente, incentivando o aperfeiçoamento tecnológico, alicerçado na manutenção de recursos naturais com redução de impacto ambiental.

O consumo sustentável nasce em meio à crise ambiental com a degradação progressiva dos recursos naturais globais e seus impactos negativos à saúde humana e do meio ambiente. Sendo assim, assume papel importante nas reflexões sobre as escolhas e as consequências nos âmbitos sócio, econômico e ambientais.

 A saúde e a natureza nunca estiveram tão em evidência quanto agora. A mudança de hábitos é de fundamental importância com grande relevância no contexto global. Essa mudança consciente começou na alimentação e, agora, se expandiu para todas as esferas de consumo, agregando, além de saúde, o bem estar e a preservação ambiental.

Como sempre digo, não há beleza sem saúde e sem consciência ambiental.

Texto escrito por Dra. Grace Marzano, bióloga, médica e cuidadora do planeta.