Doenças zoonóticas: um mundo, uma saúde

texto por Mariana Borsari

As doenças zoonóticas são doenças infecciosas que podem ser transmitidas de animais para humanos, direta ou indiretamente, via vetores ou alimentos. Nos últimos tempos estamos lidando com um aumento na frequência de novos patógenos de origem zoonótica. Que são impulsionados pelas interações complexas entre animais, humanos e o meio ambiente. Mudanças nessas interações podem causar mutações genéticas em microrganismos patogênicos. E, assim, criam novas variantes com maior virulência, bem como novos hospedeiros e meios de infecção.

A Origem

O reino animal é fonte de cerca de 60 a 70% das doenças infecciosas emergentes e reemergentes. Sendo 75% provenientes de animais silvestres. Os morcegos, pertencentes à segunda ordem de mamíferos mais abundante na Terra, são repetidamente fontes de vírus zoonóticos como o Ebola, SARS, MERS, Nipah, Hendra e a raiva. Porém, com exceção da raiva, esses vírus não causam doenças em morcegos.

Outro problema comum de responsabilidade totalmente humana é achar que matar esses animais é a solução. Não! Pelo contrário, isso – além de ser extremamente cruel – causa ainda mais desequilíbrio ambiental, que pode gerar ainda mais doenças. Respeitem a vida animal e silvestre!

Alguns impactos antropogênicos como desmatamento, desenvolvimento de terras agrícolas, intensificação da produção de animais domésticos, urbanização, ingestão e tráfico de animais silvestres e as próprias mudanças climáticas contribuem para a redução no tamanho e na diversidade de habitats. E, como observamos, pode abrir caminho para novas pandemias.

Por exemplo, na Malásia as colônias de morcegos tiveram que migrar devido ao desmatamento, e a subsequente proximidade dos morcegos com humanos pode ter levado o vírus Nipah a ser transmitido dos morcegos a porcos e humanos.

 

De onde veio o Coronavírus?

A Organização Mundial da Saúde afirma que a origem do vírus é natural, porém, não se tem certeza de qual foi o animal que trouxe a doença aos humanos. Independente de qual foi o transmissor, além da degradação dos habitats outro fator importante é o tráfico de animais silvestres.

Os animais são caçados, presos e vendidos em mercados, para os mais diversos fins. Seja produção e testes de medicamentos, seja alimentação e comércio como animais de estimação. Muitos animais silvestres não são afetados pelos vírus que carregam, mas podem causar doenças a outros animais e humanos. A comercialização e o consumo destes animais contribuem para a propagação de doenças.

 

Como evitar? Os benefícios da alimentação vegetariana/vegana

Sabemos que a pecuária e a produção de gado necessitam de espaço. Já que cerca de 80% da produção mundial de soja, 70% da produção de milho e de aveia são destinados ao consumo animal. Estudo do INPE apontou que 80% do desmatamento da floresta Amazônica está relacionado com a pecuária.

Um estudo da Universidade de Oxford evidencia que produtos de origem animal são os maiores inimigos ambientais. Sem a produção de carnes e laticínios, o uso de terras para alimentar a população poderia ser reduzido em mais de 75%. Essa redução impactaria positivamente o uso e abuso dos habitats naturais.

Nas palavras de Joseph Poore, líder do estudo da Universidade de Oxford: “Uma dieta vegana é provavelmente a melhor maneira de reduzir seu impacto no planeta, não apenas gases do efeito estufa, mas acidificação global, eutrofização, uso da terra e uso da água”.

Tanto o desmatamento como o consumo direto de alimentos de origem animal estão relacionados à origem da Covid-19. É necessário reconhecermos que a saúde do meio ambiente e dos animais influencia na nossa.

 

Saúde única

O conceito ideal de uma saúde única reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Devemos ser conscientes de que nós seres humanos estamos nos multiplicando rapidamente. E então consumimos alimentos diversos, vivemos mais próximos, e também viajamos mais. Essas ações afetam o modus operandi que conecta os humanos, com os animais e a natureza.

Então, devemos aceitar que nós seres humanos afetamos os habitats dos animais silvestres. E que isso traz graves consequências, mas que façamos isso de modo mais consciente e considerando a interdependência entre as saúdes humana, animal e ambiental.

Baseado no texto de Hannah Joan Jørgensen e Carlos das Neves do Jornal da Associação de Médicos Noruegueses (Tidsskrift for Den norske legeforening). Publicado em 26 de março de 2020.

 

Leia mais sobre as influências da sua alimentação em nosso ecossistema. Especialmente, na relação com as mudanças climáticas. Acesse aqui.

 

Fontes:

Cutler SJ, Fooks AR, van der Poel WH. Public health threat of new, reemerging, and neglected zoonoses in the industrialized world. Emerg Infect Dis 2010; 16: 1–7. [PubMed][CrossRef]

Wang LF, Anderson DE. Viruses in bats and potential spillover to animals and humans. Curr Opin Virol 2019; 34: 79–89. [PubMed][CrossRef]

Chua KB, Chua BH, Wang CW. Anthropogenic deforestation, El Niño and the emergence of Nipah virus in Malaysia. Malays J Pathol 2002; 24: 15–21. [PubMed]

Vieira ICG., Toledo PM., Silva JMC., Higuchi H. Desmatamento e ameaças à biodiversidade da Amazônia. (2008) Brazilian Journal of Biology Vol. 68.

Poore J, Nemecek, T. Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. (2018) Science, Vol. 360: 987-992

 

 

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